O trabalho de um ator começa e termina na interpretação de um personagem?
Para os formandos do Curso Técnico em Teatro da Escola Nacional de Teatro, a experiência dos últimos três anos mostrou uma profissão muito mais ampla.
Ao longo da formação, os alunos da Turma 29 passaram por diferentes linguagens, dramaturgias e processos de montagem. No último ano, ingressaram na Companhia da ENT e receberam um novo desafio: em vez de partir de uma peça já escrita, deveriam participar ativamente da criação de um espetáculo desde sua origem.
O resultado desse processo é Escopaestesia – O Peso de Ser Útil, espetáculo de criação colaborativa dirigido por Cássio Prado.
A experiência colocou os alunos diante de uma pergunta fundamental para quem pretende trabalhar profissionalmente com artes cênicas: o que um ator precisa saber além de atuar?
Quando não existe um texto pronto, por onde começa um espetáculo?
Diferentemente de uma montagem baseada em uma dramaturgia já existente, Escopaestesia – O Peso de Ser Útil começou praticamente do zero.
Não havia personagens esperando para serem distribuídos nem uma história previamente definida. O ponto de partida eram os próprios artistas.
A cada semana, os alunos eram provocados pelo diretor Cássio Prado a levar para a sala de ensaio cenas, ideias, pesquisas e assuntos que os atravessavam e que consideravam importantes compartilhar.
Para Nicolly Karine, a experiência inicialmente trouxe a insegurança natural de entrar em um território desconhecido. Aos poucos, porém, os alunos perceberam que os quatro semestres anteriores de formação haviam construído um repertório que agora poderia ser utilizado para criar.
““Houve pesquisas que influenciaram cenas e as tornaram mais ricas, tanto em técnica quanto em dramaturgia, e acabamos nos tornando também diretores de nossas próprias cenas.”
A experiência permitiu que diferentes referências, histórias e inquietações do grupo passassem a fazer parte da construção da obra.
Como define Nicolly:
“Por termos nossas próprias realidades e influências sendo exploradas na peça, ela se torna algo único e que tem a nossa cara. Podemos dizer que deixaremos nossa marca como grupo.”
Do ator-intérprete ao ator-criador
Durante uma formação teatral, estudar grandes dramaturgos é parte importante da construção de repertório.
Interpretar uma obra já escrita exige compreender o universo de um autor, investigar personagens, analisar conflitos e encontrar possibilidades para transformar palavras em ação.
Em uma criação coletiva, surge um desafio diferente.
O ator também passa a participar da construção daquilo que será dito.
Para Diogo Demaz, essa foi uma das grandes diferenças encontradas durante o processo de formatura.
“Nos tornamos investigadores, fomos atrás de referências, entendemos a mensagem e o tom de cada cena.”
Nesse tipo de processo, os atores deixam de receber apenas uma dramaturgia para interpretar e passam a participar da pesquisa, das escolhas e da construção da própria obra.
Ao olhar para o espetáculo pronto, Diogo identifica nele a trajetória coletiva da turma:
“Tem um pouco de cada um ali e de tudo aquilo que queremos falar. O sentimento é olhar o todo e ver que aquilo é nosso.”
Afinal, o que é uma criação coletiva no teatro?
Na criação coletiva ou colaborativa, diferentes artistas participam ativamente da construção do espetáculo.
Uma cena pode nascer de uma improvisação. Outra, de uma pesquisa. Um texto pode surgir durante um ensaio e ser completamente transformado semanas depois.
Em Escopaestesia, os alunos tiveram liberdade para investigar temas que os mobilizavam naquele momento.
Aos poucos, essas inquietações começaram a revelar pontos de encontro até que o grupo identificou um tema central capaz de conectar as diferentes criações.
Esse processo também exigiu aprender algo fundamental para qualquer artista: nem toda boa ideia precisa permanecer na obra final.
“Como artista, é normal se ver apegado às coisas que você idealizou”, explica Diogo Demaz.
Mas a experiência coletiva trouxe outro aprendizado:
““Ao externalizar a sua arte, ela não pertence mais só a você. Agora também pertence a todos aqueles que terão contato com ela.”
Criar também significa selecionar, transformar e, algumas vezes, abandonar ideias para que a obra encontre sua melhor forma.
O trabalho coletivo também precisa ser aprendido
O teatro é essencialmente uma arte construída em conjunto.
Em um processo colaborativo, porém, essa relação ganha ainda mais importância. Não basta defender uma boa ideia. É preciso ouvir.
Não basta criar individualmente. É necessário compreender como aquela criação dialoga com o trabalho dos outros.
Segundo Ana Soares, os alunos já vinham sendo preparados ao longo do Curso Técnico para trabalhar coletivamente, mas a criação de Escopaestesia levou essa experiência a outro nível.
“A gentileza consigo e com o outro ganha protagonismo e a sala de ensaio é tomada pela sensação de estar fazendo algo nosso. Consigo enxergar nossa turma ainda mais unida, com escuta sensível e disposta a criar junto.”
Assim, competências como escuta, colaboração, autonomia e capacidade de negociação deixam de ser conceitos abstratos e passam a fazer parte da prática cotidiana do artista.
Como as disciplinas de um Curso Técnico aparecem na criação de um espetáculo?
Uma das respostas mais interessantes dos formandos surgiu quando eles foram convidados a identificar quais conhecimentos adquiridos durante o Curso Técnico haviam sido necessários para criar uma obra autoral.
A resposta ajuda a compreender, na prática, por que a formação de um ator envolve muito mais do que aulas de interpretação.
Segundo Rodrigo Fonseca, diferentes disciplinas começaram a se conectar durante a montagem.
Os conhecimentos de Análise de Texto e Literatura Dramática ajudaram na estruturação da dramaturgia autoral. História do Teatro ampliou as referências utilizadas pelo grupo. Já experiências com Realismo, Teatro Físico, Corpo e Movimento forneceram ferramentas para lidar com as diferentes linguagens presentes no espetáculo.
Essa integração se tornou especialmente importante porque Escopaestesia dialoga com elementos do Teatro de Revista e exige dos atores rápidas mudanças de registro e atuação.
Mas o aprendizado não ficou restrito à cena.
“O curso nos ensinou a olhar para o espetáculo como um todo, entendendo que cenografia, figurino, iluminação, sonoplastia e identidade visual também ajudam a contar a história e fazem parte da experiência do público.”
Qual a diferença entre montar um clássico e criar um espetáculo do zero?
Ao longo da formação, os alunos da Turma 29 também tiveram contato com obras e autores já consolidados da dramaturgia. Essas experiências continuam sendo fundamentais. Mas construir Escopaestesia apresentou outro tipo de desafio. Brenno Resende explica:
“Montar um texto clássico é muito enriquecedor, pois trabalhamos com a obra de um autor que dedicou anos a escrever e construir aquela história. Já participar de uma criação coletiva proporciona uma experiência única, porque construímos tudo do zero. Cada integrante contribui com ideias, assume responsabilidades, participa das decisões, divide tarefas e ajuda a construir a direção e a narrativa.””
São experiências diferentes e complementares dentro da formação de um artista.
Enquanto trabalhar sobre grandes dramaturgias desenvolve determinadas ferramentas de interpretação e análise, participar de uma criação coletiva estimula autonomia, autoria, pesquisa e capacidade de transformar ideias em material cênico.
Uma formação em teatro pode abrir caminhos além da atuação
Talvez uma das descobertas mais importantes feitas pelos alunos ao longo do Curso Técnico tenha sido perceber a quantidade de profissões e possibilidades existentes dentro das artes cênicas.
Low Neves conta que, durante a formação, os estudantes experimentaram diferentes funções:
“Durante toda nossa formação fomos dramaturgistas, dramaturgos, cenógrafos, figurinistas, contrarregras, iluminadores e tantas outras posições dentro e fora de cena.”
A experiência do espetáculo de formatura ampliou ainda mais essa percepção.
Dramaturgia, cenografia, produção, figurino e maquiagem passaram a aparecer não apenas como conhecimentos complementares, mas também como possíveis caminhos profissionais.
Essa formação mais ampla permite que o futuro artista compreenda melhor o funcionamento do mercado e descubra diferentes possibilidades de construir sua trajetória profissional.
Uma obra que fala sobre o tempo em que vivemos
Toda essa pesquisa precisava, em algum momento, encontrar uma pergunta comum.
Escopaestesia – O Peso de Ser Útil nasceu das inquietações de jovens artistas observando o mundo ao seu redor.
Sem revelar completamente o que o público encontrará no palco, Brenno Resende dá uma pista:
“Esperamos que o público consiga enxergar um pedacinho da realidade em que vivemos hoje. A ideia é provocar reflexão e fazer com que cada pessoa saia do espetáculo se questionando sobre o mundo e sobre si mesma.”
Aos poucos, cenas inicialmente independentes encontraram conexões.
Com a condução do diretor Cássio Prado, ideias foram reorganizadas, conceitos ganharam unidade e aquilo que começou como uma série de provocações passou a assumir a identidade de um espetáculo.
Quando um espetáculo de formatura também se torna uma passagem para a vida profissional
Para a Turma 29, Escopaestesia – O Peso de Ser Útil representa o encontro entre diferentes experiências acumuladas ao longo da formação.
Técnica, repertório, pesquisa, criação, trabalho coletivo e autonomia precisaram funcionar simultaneamente.
Enzo Holanda define o espetáculo como uma síntese desse percurso:
“Escopaestesia – O Peso de Ser Útil representa a síntese da nossa trajetória como alunos-atores, colocando em prática tudo o que aprendemos ao longo da nossa formação. Além de marcar a conclusão deste percurso, o processo nos proporciona um importante passo em direção à vida profissional, especialmente pela experiência de vivenciar uma criação colaborativa, fundamental para o fazer teatral.”
Depois de três anos, talvez uma das descobertas mais importantes desses jovens artistas seja justamente a amplitude da profissão que escolheram.
Um ator pode interpretar.
Mas também pode pesquisar, escrever, criar, produzir, conceber imagens, pensar dramaturgias e construir seus próprios projetos.
Formar um ator, portanto, também significa oferecer ferramentas para que ele encontre diferentes maneiras de ocupar o mundo profissional da arte.
