
Ator e diretor chileno, fundador da Cía Expedición Teatral, compartilha sua trajetória artística, os princípios da pedagogia de Jacques Lecoq e os caminhos de uma pesquisa teatral que transforma o corpo em instrumento de criação.
O palco está vazio. Não há grandes cenários, recursos tecnológicos ou mudanças elaboradas de figurino. Ainda assim, diante dos olhos do público, personagens aparecem, ambientes se transformam e histórias inteiras ganham vida.
Essa é uma das possibilidades do teatro físico, linguagem que tem no corpo, no movimento e na imaginação do ator seus principais instrumentos de criação.
Há mais de duas décadas, o ator, diretor e criador cênico chileno Javier Barrera dedica sua trajetória à investigação dessa linguagem. Fundador da Cía Expedición Teatral, criada em 2005, o artista construiu uma carreira que reúne atuação, direção, dramaturgia, produção e pesquisa pedagógica, tendo como uma de suas principais referências o trabalho de Jacques Lecoq.
Em seu reencontro com a Escola Nacional de Teatro (ENT), em Santo André, depois de 14 anos, Javier compartilha sua experiência por meio do workshop Introdução ao Método Lecoq e do espetáculo Más que Hermanos, um trabalho solo no qual interpreta diferentes personagens utilizando principalmente o corpo, a voz e o espaço vazio.
Em entrevista à ENT, ele fala sobre sua formação, os caminhos da criação teatral, a importância da observação e as possibilidades que surgem quando o ator aprende a utilizar o corpo para construir histórias.
Do deserto do Atacama aos palcos: como começou a trajetória de Javier Barrera.
A relação de Javier Barrera com o teatro começou longe dos palcos.
No ano 2000, ele trabalhava como guia turístico em San Pedro de Atacama, no norte do Chile. O contato cotidiano com visitantes, a necessidade de se comunicar e a experiência de conduzir grupos despertaram seu interesse pela relação entre quem conta uma história e quem a recebe.
Ao final dos passeios, os aplausos dos turistas começaram a provocar uma inquietação artística. Foi nesse período que decidiu estudar teatro profissionalmente.
Um folheto o apresentou à Escola Internacional do Gesto e da Imagem La Mancha, em Santiago, onde iniciaria sua formação e encontraria uma pedagogia que marcaria profundamente sua carreira.
“A escola ensina a ser um homem de teatro: atuar, dirigir e produzir.” — Javier Barrera
Essa compreensão ampliada do ofício acompanha seu trabalho até hoje. Para Javier, o artista precisa desenvolver não apenas habilidades de interpretação, mas também ferramentas que lhe permitam criar, pesquisar e realizar seus próprios projetos.
Jacques Lecoq e uma formação baseada no corpo e na imaginação
Foi na Escola La Mancha que Javier conheceu a pedagogia de Jacques Lecoq, artista e pedagogo francês cuja pesquisa colocou o movimento corporal no centro do processo de formação teatral.
Seu professor havia sido discípulo direto de Lecoq e estudado pedagogia com ele, estabelecendo uma relação próxima entre os ensinamentos do mestre francês e a formação desenvolvida no Chile.
Para Javier, o encontro com essa metodologia respondeu a necessidades que já identificava em sua própria pesquisa artística.
“Essa pedagogia e esse método chegaram até mim como uma luva, em sintonia com aquilo de que eu precisava: desenvolver a criatividade e a imaginação e observar profundamente o comportamento humano e a natureza, entre outras coisas.” — Javier Barrera
Ao longo dos anos, outras referências também passaram a compor sua linguagem: Peter Brook, Jerzy Grotowski, Marcel Marceau, Charles Chaplin e o diretor chileno Andrés Pérez.
Embora tenham desenvolvido pesquisas distintas, esses artistas oferecem contribuições fundamentais para uma investigação que permanece central no trabalho de Javier: as possibilidades expressivas do corpo e sua relação com o espaço.
O que é o Método Lecoq e como ele contribui para a formação do ator?

A pedagogia de Jacques Lecoq investiga o movimento como caminho para a criação teatral. Parte da observação do corpo, dos gestos, da natureza e do comportamento humano para desenvolver a expressividade, a imaginação e a capacidade de criação dos artistas.
Em vez de concentrar o trabalho exclusivamente na interpretação psicológica de personagens, essa abordagem convida o ator a pesquisar fisicamente as relações entre movimento, emoção, espaço e ação.
Na perspectiva de Javier Barrera, um dos principais objetivos dessa formação é ampliar a consciência que o artista tem do próprio corpo.
” O Método Lecoq trabalha o domínio, o conhecimento e o autoconhecimento do corpo; suas diferentes possibilidades, sempre em conexão com a nossa dimensão psicológica.” — Javier Barrera
Javier chama atenção para a capacidade de invenção tão presente na infância, quando objetos, movimentos e espaços podem adquirir inúmeros significados por meio do jogo.
No teatro, essa disponibilidade criativa permite que o ator ultrapasse a representação convencional de personagens.
Um movimento pode sugerir um ambiente. Uma mudança de postura pode revelar um conflito. O ritmo de uma ação pode construir uma atmosfera inteira.
O corpo passa a ser, simultaneamente, instrumento de comunicação, matéria de pesquisa e linguagem artística.
O espaço vazio e a construção de mundos no teatro físico
Uma das características mais marcantes do trabalho de Javier Barrera é a utilização do espaço vazio.
Na Cía Expedición Teatral, o corpo, o gesto, a palavra e a dimensão psicológica dos personagens são trabalhados de maneira integrada. A companhia também desenvolveu uma linguagem próxima da narrativa cinematográfica, com transições e mudanças de situações que se apoiam diretamente na ação do ator.
“Trabalhamos o espaço vazio para preenchê-lo com mundos e histórias, conectando corpo, gesto, texto e psicologia.” — Javier Barrera
Para o artista, dominar essa linguagem exige precisão e disponibilidade.
A construção de um personagem pode acontecer por meio de uma alteração na postura corporal, na energia, no ritmo ou na qualidade da voz, sem que seja necessário recorrer a figurinos ou cenários para indicar cada transformação.
Essa pesquisa aparece de maneira especialmente evidente em seu espetáculo solo, Más que Hermanos, no qual Javier assume diferentes personagens diante do público.
O trabalho se aproxima da linguagem do conteur-mime, ou mimo narrador, na qual a narração e a expressividade corporal se articulam para criar personagens, acontecimentos e ambientes.
A Cía Expedición Teatral: uma companhia nascida do desejo de explorar
Fundada em 2005, a Cía Expedición Teatral nasceu como um projeto pessoal de Javier Barrera e, ao longo de sua trajetória, reuniu diferentes atores e artistas.
A escolha do nome da companhia guarda uma relação direta com a história de seu fundador.
Antes do teatro, Javier trabalhava com expedições e excursões no deserto do Atacama. A experiência de percorrer territórios, descobrir lugares e conduzir viagens permaneceu como referência quando decidiu criar seu próprio grupo.
“O conceito de expedição ficou muito marcado em mim. Depois quis unir essas duas ideias: a expedição, que fala de uma trajetória, uma viagem e uma travessia, com a vida e o teatro.” — Javier Barrera
A pesquisa da companhia se desenvolveu a partir do teatro físico, do trabalho com o espaço vazio e de dramaturgias que transitam entre a comédia e o drama.
Outro elemento central de sua identidade é o interesse por personagens populares e histórias relacionadas à realidade chilena e latino-americana.
Trabalhadores das minas, operários da construção civil e personagens de bairros populares de Santiago estão entre os universos que inspiraram suas criações.
A companhia já percorreu o Chile, de Arica a Punta Arenas, e levou seus espetáculos a diferentes países da América do Sul, incluindo Brasil, Argentina, Colômbia, Bolívia, Peru e Uruguai.
Entre os momentos marcantes dessa trajetória estão os prêmios do público recebidos em festivais chilenos e a participação em um festival de novos diretores da Universidade do Chile.
Más que Hermanos: um único ator, diferentes personagens e uma história sobre relações humanas
O espetáculo Más que Hermanos surgiu do desejo de Javier de experimentar integralmente a responsabilidade de estar sozinho em cena.
A montagem também oferecia maior autonomia de produção, permitindo que o artista circulasse com seu trabalho sem depender de uma equipe numerosa de atores.
A origem da dramaturgia está em um exercício teatral criado por um colega durante o período de formação de Javier. Anos depois, o artista retomou aquele material e o transformou em uma peça solo.
A obra aborda a fragilidade e a importância das relações familiares, além das desigualdades sociais presentes em Santiago do Chile.
Personagens de diferentes classes sociais e contextos convivem em uma narrativa que revela os contrastes de uma mesma cidade.
Na encenação, Javier utiliza a própria expressividade para construir essas relações.
“Não dependemos do figurino: são o corpo, a voz, o ritmo e o gesto que configuram cada personagem, cada momento e cada espaço da obra.”
— Javier Barrera
A apresentação permite ao público acompanhar, na prática, os princípios que orientam sua pesquisa teatral: a transformação do espaço por meio da atuação, a criação física de personagens e a capacidade de sugerir ambientes e acontecimentos sem depender de recursos cenográficos complexos.
Aprender teatro também significa perder o medo de errar
No workshop Introdução ao Método Lecoq, Javier propõe aos participantes uma experiência prática de investigação corporal, imaginação e jogo cênico.
A atividade é indicada tanto para estudantes de teatro e atores profissionais quanto para pessoas que ainda não tiveram contato com essa linguagem, mas desejam explorar as possibilidades expressivas do próprio corpo.
Segundo o artista, o mais importante é chegar com disponibilidade para experimentar.
““Espero dos alunos: entrega, energia, capacidade de jogo e disposição para não ter medo de errar. Isso faz parte do Método Lecoq: utilizar o erro como uma possibilidade criativa e como uma força para o conhecimento.”
— Javier Barrera
Para ele, experimentar sem a preocupação de acertar imediatamente permite que novas ideias apareçam e que o artista reconheça possibilidades que talvez não encontrasse por meio de um processo exclusivamente racional.
O workshop também propõe ampliar a capacidade de observação e autoconhecimento.
Ao final da experiência, Javier espera que os participantes desenvolvam novas ferramentas para a construção de personagens e histórias, além de um olhar mais atento às relações entre corpo, movimento e espaço.
A aproximação entre o workshop e o espetáculo Más que Hermanos oferece ainda uma possibilidade de aprendizado: experimentar alguns princípios do teatro físico e depois reconhecê-los no trabalho de um artista em cena.
Brasil e Chile: um reencontro artístico depois de 14 anos
A relação entre Javier Barrera e a Escola Nacional de Teatro começou há 14 anos, quando o artista esteve no Brasil durante uma circulação internacional da Cía Expedición Teatral.
Na ocasião, a companhia participou de um festival em Fortaleza e visitou a ENT, em Santo André.
O reencontro representa a continuidade de uma relação artística construída ao longo do tempo.
“É maravilhoso poder voltar depois de 14 anos. Estive na Escola Nacional de Teatro há 14 anos, e é muito bonito experimentar essas sensações.”— Javier Barrera
O artista também destaca a importância das redes de colaboração que possibilitaram a circulação de seu trabalho.
Suas turnês foram realizadas de maneira independente, por meio de contatos e parcerias estabelecidos em diferentes países.
Para a ENT, receber novamente um artista internacional que desenvolve uma pesquisa própria em teatro físico amplia as possibilidades de contato dos estudantes e da comunidade artística do Grande ABC com diferentes práticas e perspectivas de criação.
O encontro integra as ações de conexões internacionais da Escola, que buscam aproximar a formação teatral desenvolvida em Santo André de artistas, metodologias e experiências de outros países.
Teatro, criatividade e novas formas de observar o mundo
Ao longo da entrevista, uma ideia atravessa as diferentes experiências relatadas por Javier Barrera: o trabalho do ator está profundamente ligado à capacidade de observar.
Observar o outro, a natureza, os movimentos cotidianos e o próprio corpo.
É dessa investigação que podem surgir novos personagens, situações e possibilidades de criação.
Na visão do artista, o teatro físico também convida os participantes a ampliar a compreensão do que pode ser interpretado em cena.
“Você também poderá compreender que atuar não consiste apenas em interpretar pessoas, mas que também podemos interpretar objetos e até elementos da natureza.”— Javier Barrera
Para resumir aquilo que deseja compartilhar com o público brasileiro, Javier escolhe quatro palavras:
“Energia, criatividade, emoção e corpo.”
Elas sintetizam uma trajetória construída entre a pesquisa, a formação artística, a criação de espetáculos e o encontro com diferentes públicos.
Na Escola Nacional de Teatro, essa experiência se soma a uma proposta de formação que reconhece a importância do repertório, da pesquisa e do intercâmbio artístico para o desenvolvimento de atores e criadores.
Sobre Javier Barrera
Javier Barrera é ator, diretor, dramaturgo, produtor e criador cênico chileno. Formado pela Escola Internacional do Gesto e da Imagem La Mancha, em Santiago, desenvolve sua pesquisa a partir da pedagogia de Jacques Lecoq, do teatro físico e da criação de personagens por meio do corpo e do movimento. É fundador da Cía Expedición Teatral, companhia criada em 2005, com trajetória em festivais, apresentações e projetos teatrais no Chile e em diferentes países da América do Sul.
Sobre a Escola Nacional de Teatro
Fundada em 1992, a Escola Nacional de Teatro (ENT) é uma instituição de formação em artes cênicas localizada em Santo André, no Grande ABC paulista.
Oferece Curso Técnico em Teatro, voltado à formação profissional de atores, além de cursos livres, workshops e atividades artísticas. Por meio de iniciativas como as Conexões Internacionais, promove encontros com artistas e pesquisadores de diferentes países, ampliando o acesso a práticas, linguagens e experiências do teatro contemporâneo.
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